As dificuldades neurológicas devem ser diagnosticadas o mais precocemente possível. Entenda o porquê

Amigo leitor, vamos fazer uma viagem ao nosso passado. Pense você que todos nós, sem exceção, fomos formados de uma única célula, um óvulo, que se dividiu em dois, quatro, oito, até formar uma enorme população da ordem de grandeza de trilhões de células. Somos, assim, uma imensa população celular. Esse óvulo microscópico e invisível a olho nu implanta-se no útero e ao final de uma gestação surge um novo ser, que acolhemos em nossos braços. A velocidade de crescimento e desenvolvimento nesse primeiro ano de vida é maior do que em qualquer outro período.

O mesmo pode ser aplicado para nosso cérebro, que deverá fazer crescer, multiplicar e gerenciar uma população de neurônios que pode chegar a 100 bilhões de células. Trata-se de um órgão extremamente complexo, com uma taxa de metabolismo altíssima. Glicose e oxigênio devem ser ofertados em quantidade e qualidade suficiente para que esse órgão funcione, cresça e se organize perfeitamente.

Essa característica faz com que nosso sistema nervoso seja ao mesmo tempo sensível, mas também prodigioso. Muitas características são variações normais do nosso desenvolvimento, outras nem tanto. Por exemplo, problemas na oferta para o cérebro de glicose e oxigênio em um momento tão delicado em que se está organizando sua intricada arquitetura podem acarretar complicações futuras no seu funcionamento.

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Algumas condições clínicas já se manifestarão no primeiro ano de vida, ainda que muitas vezes de uma maneira sutil. Várias terão início com sintomas comuns entre si, que progredirão e terão desfecho semelhante ou diferente conforme sua natureza. Existem também algumas condições clínicas que somente irão se manifestar em idades maiores, cada transtorno com sua característica específica.

Em qualquer dos casos a intervenção o mais precoce possível pode fazer com que estímulos corretos auxiliem na formação e remodelamento do Sistema Nervoso.

“Se você pôde ler este texto, considere-se um privilegiado”

Se você pôde ler este texto até aqui, considere-se um privilegiado. Sim!

Você teve todas as oportunidades físicas e sociais para isto. Você nasceu com um cérebro capaz de decodificar a luz que os olhos captam e processar essas informações agindo em conjunto como uma fabulosa orquestra cuja sinfonia é o entendimento daquilo que está escrito.

Superados esses prerrequisitos de “bom funcionamento” do sistema nervoso, você teve ainda de ter outras pessoas que direta ou indiretamente contribuíram para que você aprendesse tudo o que sabe. Assim, o processo de crescer e aprender envolve uma teia muito grande de fatores e oportunidades para que aconteça. Um ambiente que seja estimulante, pessoas aptas a transmitir o conhecimento, todo um conjunto de políticas públicas que favoreçam o ensino.

E quando algo não dá certo?

Quantos não se desenvolvem por questões orgânicas ou por problemas neurológicos? Quantos desses casos poderiam ser evitados ou amenizados?

Quando encontramos uma criança com alguma dificuldade em seu desenvolvimento não nos cabe ser juízes para determinar sua (in)capacidade de fazer algo, ou mesmo ignorar e fingir que o problema não existe.

Esta é a importância do diagnóstico precoce: temos que intervir, com as ferramentas que estejam disponíveis para cada realidade, por menores que possam parecer nossos recursos. Isso tudo para permitir que aquele jovem ser tenha o máximo de oportunidade de se desenvolver.

Se o resultado final algumas vezes não for o inicialmente sonhado, paciência, pois o futuro não nos pertence. Temos tão só o presente em nossas mãos e é nele que devemos cumprir nossa obrigação de dar oportunidades.

Mas, acredite, as crianças costumam nos surpreender ao mostrar do que são capazes.


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Dr. Natanael L. Mota

Neurologia Infantil – CRM/MG 55.964

• Residência Médica em Pediatria pelo Hospital Regional João Penido – FHEMIG – Juiz de Fora.

• Residência Médica em Neurologia Infantil pelo Hospital Infantil João Paulo II – FHEMIG – BH.

• Membro da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil – ABENEPI.


Fotos: Daniel Rocha

Revista Ipê