As mortes por câncer aumentaram 31% no Brasil em 15 anos, chegando a 223,4 mil por ano no final de 2015, segundo a OMS. Hoje, o câncer é a segunda causa de mortes no país, superado apenas por doenças cardiovasculares. Preocupante ressaltar que este crescimento vai no sentido oposto às taxas de mortalidade por câncer dos países desenvolvidos, como EUA, Inglaterra e Alemanha, que experimentam uma redução anual de cerca de 1% nos últimos 25 anos.

Estudos mais recentes apontam que, ao contrário do que se supunha no passado, os fatores hereditários são a causa de cerca de 32% dos casos de câncer, podendo alcançar em alguns tumores, como o câncer de próstata, até 54%, alerta o oncologista, professor, pesquisador e pós-doutorando em Genética André Márcio Murad, coordenador da disciplina Oncologia da Faculdade de Medicina da UFMG, diretor clínico da Clínica Personal – Oncologia Personalizada e de Precisão de Belo Horizonte e do Serviço de Oncologia da Santa Casa de Misericórdia de Lavras e membro da Comissão de Construção do Hospital do Câncer Lavrense. O câncer é causado em 60% a 70% dos casos por fatores ambientais, associados ou não a fatores genéticos, que  são classificados em químicos, físicos e biológicos. Como agentes químicos, destacam-se o tabaco; a dieta inadequada, rica em gordura e proteína animais, com excesso de carnes vermelhas, salgadas, embutidas, enlatadas e pobre em produtos vegetais; a obesidade; o sedentarismo; o álcool e vários agentes ocupacionais, como solventes orgânicos, além de fuligem, agrotóxicos e pesticidas. Como agentes físicos, destaca-se a exposição à luz solar e à irradiação ionizante. Como agentes biológicos, o vírus HPV e o das hepatites B e C, além da bactéria Helicobacter pylori (câncer de estômago).

Dieta apropriada, exercícios físicos regulares, manutenção do peso ideal, não fumar, não beber e utilizar a exposição solar de forma judiciosa podem prevenir cerca de 65 a 70% dos casos de câncer ambiental. Já os fatores genéticos podem ser responsáveis por cerca de 32 a até 54% dos casos, como sugerem os últimos estudos, que utilizaram a avaliação de casos de câncer de milhares de gêmeos de países nórdicos. Até recentemente, supunha-se que a hereditariedade seria responsável por apenas 10 a 12% dos casos de câncer. A suspeita de síndromes genéticas de predisposição ao câncer deve ser feita sempre quando houver  vários casos de um mesmo tipo ou tipos variados de câncer em parentes de uma mesma família e ocorrendo em idade abaixo de 55 anos.

A importância do diagnóstico correto é que as mutações geradoras das síndromes genéticas de predisposição ao câncer podem ser avaliadas através do estudo das tendências familiares de cada pessoa e principalmente de modernos exames genéticos realizados de material retirado da saliva, que detectam estas mutações nos genes específicos, responsáveis por estes tipos de câncer. Tal identificação é vital na prevenção e no diagnóstico precoce destes tumores, o que propiciará medidas preventivas, como orientação dietética, perda de peso, exercícios físicos e também de rastreamento periódico (que pode incluir exames clínicos, endoscópicos e radiológicos) e até mesmo cirúrgicas, como a remoção profilática do intestino grosso, tireóide e mesmo ovários e mamas, nos casos indicados. Esses exames hoje são disponíveis em vários laboratórios do país, alguns inclusive cobertos pelos planos de saúde.


André Márcio Murad

Oncologista Coordenador do Serviço de Oncologia da Santa Casa   

Revista Ipê