Cobras nas trilhas: o que fazer em caso de acidentes

Praticar esportes entre trilhas e matas, contemplando a natureza. Um passeio prazeroso e saudável, que atrai cada vez mais adeptos. Mas, é necessário ter alguns cuidados para evitar que a curtição se torne um desastre. Especialmente naqueles ambientes de acesso mais difícil, é fundamental estar preparado caso encontre algum animal peçonhento. Aranhas, escorpiões, mas principalmente serpentes, são moradores comuns destes locais.

Coral verdadeira

Coral verdadeira

Mas, não precisa se assustar com qualquer cobra que encontrar. A quantidade de serpentes peçonhentas na natureza é menor que as inofensivas. No Brasil, há quatro gêneros de cobras consideradas venenosas: bothrops (jararaca, jararacuçu, urutu, cotiara, caiçaca), crotalus (cascavel), lachesis (sucurucu-pico-de-jaca) e micrurus (corais-verdadeiras).

A policial militar de Meio Ambiente cabo Rosane Aparecida Miranda destaca que na nossa região são mais comuns: cascavel, urutu cruzeiro e jararaca. “A mais encontrada aqui é a cascavel. Ela é a que mais se adapta com a antropização do ambiente, por isso se prolifera facilmente. É uma serpente que avisa quando vai atacar, pois espera para dar o bote e ainda faz o barulho com o chocalho ou guizo. Já a urutu cruzeiro, também comum na nossa região, é uma das mais agressivas, o seu veneno tem uma ação neurotóxica muito intensa, ou seja, age no sistema nervoso, com grandes chances de deixar sequelas”, comenta.

Soldado Benfenatti, Sargento Ione Piva e Cabo Rosane

Soldado Benfenatti, Sargento Ione Piva e Cabo Rosane

Rosane tem formação em Ciências Biológicas, ministra palestras e realiza demonstrações com essa temática no Centro de Educação Ambiental (Ecolândia), pertencente à 6ª Companhia Independente de Meio Ambiente e Trânsito Rodoviário em Lavras. Também fazem parte da patrulha de prevenção ambiental a sargento Ione Piva e o soldado Benfenatti.

Na Ecolândia há um serpentário, onde ficam cobras recolhidas pelos policiais militares de Meio Ambiente e do Corpo de Bombeiros, ou entregues voluntariamente por moradores rurais. Elas são utilizadas para a prática da educação ambiental com o público visitante, mediante palestras e demonstrações. Sempre que possível, essas serpentes são encaminhadas para a Fundação Ezequiel Dias (Funed), em Belo Horizonte/MG, sendo fundamentais para a fabricação do soro antiofídico, que posteriormente é distribuído nas Unidades de Saúde.

Ao se deparar com uma cobra, tente ficar calmo. Se perceber que ela está indo para outra direção, sem prestar atenção em você, deixe-a ir. Mas, se ela se mantiver imóvel, olhando na sua direção, possivelmente já está preparando o bote, assim, afaste-se lentamente. Algumas espécies podem saltar 1,5m, então, saia o quanto antes (evitando movimentos bruscos)- alerta a 6ª Cia de Meio Ambiente e Trânsito Rodoviário em Lavras

COMO SE PREVENIR

Ao fazer trilhas é necessário estar atento a locais próximos de culturas, como milharal e cafezal- lugares comuns de encontrar cobras devido à presença de roedores. “Cupinzeiro também é um dos ambientes favoritos das serpentes, então, evite ao máximo passar perto. Uma dica é o ciclista, que tem o costume de andar em determinada localidade, conversar com o produtor rural daquela região para saber se é comum achar cobras por ali”, comenta a cabo Rosane. Além disso, os acidentes têm maior probabilidade de ocorrer em períodos quentes. No sudeste, a maior incidência é de dezembro a março.

A militar também explica que é importante sempre estar acompanhado durante o passeio, pois após uma picada de cobra, além da dor local, a visão é a primeira a ser prejudicada. “Às vezes as vistas já ficam embaçadas logo em seguida, principalmente se a picada for de cascavel”.

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A Funed explica que as cobras consideradas venenosas ou peçonhentas possuem glândulas secretoras de veneno localizadas de cada lado da cabeça, recobertas por músculos compressores, conectadas, por ductos, às presas inoculadoras. Essas presas têm tamanho diferenciado dos demais dentes e podem estar localizadas nas regiões anterior ou posterior da boca.

COMO PROCEDER APÓS A PICADA

Após uma picada de cobra, a primeira coisa a ser feita é lavar o local (com água e sabão) e ir imediatamente à Unidade de Saúde mais próxima. E, evitar todos os mitos e crendices. O que NÃO deve ser feito: torniquete, pois impede a circulação do sangue e pode causar necrose; ou furar; cortar; queimar; espremer, fazer sucção no local da ferida; aplicar café, terra, folhas, pinga, querosene, fumo, ou qualquer remédio caseiro.

É importante manter a pessoa em repouso e calma. “Quando a pessoa fica muito agitada, a adrenalina é liberada, causando vasodilatação, assim as toxinas espalham mais facilmente. O mais importante é encaminhar rapidamente a pessoa ao hospital. Há estudos que mostram que o ideal é chegar ao atendimento médico em até duas horas, mas isso varia muito, se é um idoso ou criança, se há alguma doença crônica, a quantidade de veneno. São diversas variáveis que podem influenciar”, relata a cabo Rosane.

Não mate as cobras. Elas têm um papel fundamental no ecossistema, mantendo o equilíbrio do meio ambiente, além de serem responsáveis pela fabricação do soro antiofídico

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Rosane esclarece que existe a fabricação de soros por gênero, específicos a cada tipo de picada, que devem ser ministrados de acordo com a gravidade, mas, além destes, é importante que a Unidade de Saúde tenha o soro universal. “Muitas vezes a pessoa não consegue identificar qual cobra lhe picou. E temos que ressaltar que essa identificação, se possível, é interessante, mas não é crucial. O importante é ser atendido o mais rápido possível. E, cuidado! A manipulação de cobras mortas também é perigosa e pode causar acidente”.

Antes de viajar, informe-se sobre as unidades de saúde mais próximas do seu passeio. Todos os locais que possuem o soro podem ser consultados na página da Funed. Em Lavras, a medicação deve ser realizada na Unidade de Pronto Atendimento (UPA).

CARACTERÍSTICAS DAS SERPENTES
MAIS COMUNS NA REGIÃO

CASCAVEL: vive em áreas abertas, campos, regiões secas e pedregosas. Os indivíduos adultos atingem o comprimento de 1,6 metro. Uma das características mais marcantes é a presença do chocalho na ponta da cauda.

cascavel - crotulus durissus (2)


URUTU CRUZEIRO: Animais corpulentos que podem alcançar até 1,5 m. Vivem em montes de paus e pedras, em locais úmidos ou alagadiços, onde se alimentam de roedores.

Urutu


JARARACA: o padrão de coloração da espécie varia do castanho claro até quase completamente negro. Estes animais têm grande capacidade adaptativa, ocupando tanto áreas silvestres quanto áreas agrícolas, suburbanas e urbanas. Seu tamanho médio é cerca de 1 metro.

Jararaca 2


TRATAMENTO:

Os acidentes crotálicos, causados por cascavéis, representam cerca de 8% dos acidentes ofídicos registrados no Brasil. Os sintomas e sinais apresentados pelos pacientes picados são consequência das atividades neurotóxica, miotóxica e coagulante do veneno. O soro específico utilizado no tratamento da picada de cascavel é o anticrotálico, o qual deverá ser aplicado por via intravenosa, em ambiente hospitalar.

As serpentes do gênero Bothrops (jararaca, jararacuçu, jararaca do rabo branco, urutu cruzeiro e outras) são responsáveis por cerca de 90% dos acidentes ofídicos ocorridos no Brasil. O soro antibotrópico (pentavalente), heterólogo e hiperimune, é indicado como um dos tratamentos para envenenamento causado por picada de serpentes do gênero Bothrops e deve ser aplicado somente com acompanhamento médico.

Fonte: Funed


Por Camila Caetano
Fotos: Funed
Foto capa: Daniel Rocha

Revista Ipê