Quando os irmãos Auguste e Louis Lumiere abriram portas para o futuro do entretenimento, ainda no século XIX, mal sabiam que a indústria cinematográfica teria efeitos colaterais na moral de um povo. Por meio de cenas de tirar o fôlego, telespectadores mundo afora testemunhariam ficção e realidade de forma incomparável.

O que seria uma série de sucesso no portfólio da Netflix se tornou um caso de polícia nos bastidores. Mas antes de entendermos a razão, é importante que façamos uma pequena viagem pelo tempo. House of Cards é uma produção baseada na trama escrita por Michael Dobbs e Andrew Davies na década de 1990. Adaptada pelo roteirista Beau Wilimon, esse fenômeno televisivo conta a história do congressista Frank Underwood, estrelada por Kevin Spacey. Durante sua carreira política na capital norte-americana, Underwood constrói uma teia de manipulação capaz de derrubar o próprio presidente. Mesmo assumindo a cadeira principal da Casa Branca, Frank Underwood continua a surpreender a cada episódio com demonstrações sagazes e repletas de mentiras, chantagem e ameaças.

A quinta temporada fecharia mais um ciclo de louvor se não fossem as revelações feitas sobre Underwood, ou melhor, Kevin Spacey. O premiado ator foi acusado de assédio sexual por colegas de profissão. Os também atores Anthony Rapp, Roberto Cavazos e até membros da produção de House of Cards declararam ter recebido comentários inapropriados e contatos não consensuais de Spacey. Rapidamente as denúncias se espalharam pela mídia e, ao que parece, nem mesmo as artimanhas estreladas por seu personagem serão úteis na vida real.

Devido ao turbilhão de escândalos, a Netflix decidiu por suspender a sexta temporada, prevista para 2018, e avaliar qual será o futuro da trama que tem Kevin Spacey como protagonista. “Uma das possibilidades é a morte do personagem Frank Underwood”, contou um dos membros da direção em entrevista exclusiva à Revista Variety. A queda do presidente dos Estados Unidos em House of Cards abriria espaço para Clair Underwood, interpretada pela atriz Robin Wright, dando assim um novo rumo para o encerramento desse engenhoso roteiro.

E não é de hoje que Hollywood é fragilizada com escândalos sexuais, sendo que o mais recente atingiu a alta cúpula dos estúdios de cinema. O produtor Harvey Weinstein tem recebido uma enxurrada de acusações que culminaram na maior crise moral envolvendo comportamentos sórdidos e inimagináveis.

Enquanto isso, no Brasil, a corrupta vida de Frank e Claire Underwood é exibida pelo Netflix e Paramount Pictures. Fãs e curiosos da série ainda podem especular sobre qual será o desfecho dessa jornada tão obscura para quem está atrás ou diante das telas.


Diego Nascimento

jornalista e palestrante
www.diegonascimento.com.br 

Revista Ipê