Por Marina Alvarenga Botelho
Fotos: Daniel Rocha Fotografias


Para uma das matérias da edição passada da Revista Ipê, procuramos o Evandro Menicucci, um dos arquitetos mais conceituados de Lavras. Por ser uma cidade média, podemos dizer que, em Lavras, todo mundo conhece todo mundo, ou pelos menos os pais e os avós. Fomos à casa do Dr. Evandro, como é conhecido, e, feitas as devidas apresentações e passado aquele momento de uma estranha familiaridade, justamente por já ter sido professor da minha mãe na Universidade Federal de Lavras (UFLA), eu me dei conta de que aquele arquiteto, que até então era apenas um nome famoso para mim e que sentava ao meu lado, tinha muita história para contar. E foi nesse momento que eu me perguntei – quem é esse senhor simpático, cheio de história e de histórias? Como jornalista adora causos, pensei que seria de uma riqueza enorme registrar um pouco da história desse arquiteto que ama sua profissão, música clássica e um bom vinho.

Para essa entrevista de perfil, voltamos à casa dele, em uma manhã de uma quinta-feira. O Dr. Evandro nos recebeu em sua sala, um cômodo arejado e naturalmente iluminado, com os móveis bem pensados e vista para o charmoso espaço cheio de verde do jardim. Comecei com uma pergunta bem clássica, e até um pouco clichê: afinal, quem é o Dr. Evandro? “Essa pergunta é difícil. Eu sou um cidadão que procura fazer da minha meta um sonho. Ser responsável e respeitar o próximo e fazer da minha profissão uma missão”, disse ele.

Filho de uma família de médicos, o Evandro descobriu que queria ser arquiteto em 1954. Era estudante interno no Colégio Marista, em Varginha, na terceira série do ginásio. “Eu sempre tive sensibilidade e organização espacial. Eu sonhava com estruturas montadas. Eu via uma residência, uma edificação e queria saber porque era assim. Sempre tive facilidade de conceber as coisas no espaço, sentir aquilo no espaço e transportar para o papel, e para a obra em si. Porque arquitetura nada mais é do que a concepção de coisas no espaço”. E, desde esse momento, nunca mais desistiu desse sonho.

O arquiteto, que conseguiu realizar o seu sonho, logo completa: “entre gostar de ser arquiteto, conceber as coisas no espaço, existe uma coisa principal, que é o cliente”. Para ele, o cliente é o foco de tudo, e por isso sua preferência em trabalhar com residências, pois é o momento de realizar o sonho de uma família. “Projetar uma fábrica, um prédio de apartamento, um banco, um hospital, é uma coisa. Quando você projeta uma residência, você pega no interior, no âmago, no íntimo da família. Você tem que conhecer todos, enxergar e conversar, totalmente descontraído, para você conseguir fazer um trabalho coerente. Porque não adianta o arquiteto fazer só o que ele quer, o arquiteto tem que fazer a sua personalidade se transformar num conforto para aquela família.”

Reforçando novamente, portanto, que o cliente é a razão e o porquê das coisas, de ser um arquiteto, o simpático senhor conta, com um saudosismo tenro, o caminho que trilhou para chegar até aqui. Ingressou na Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1961, e se formou em 1966. Sempre sonhando com seu futuro, hoje muito bem realizado. “A gente quando está na faculdade fica meio inseguro, não vai ter sucesso na vida, não vai ter condição de trabalho, como todo jovem da época e de hoje e amanhã, sente essa insegurança. Mas, felizmente, eu lutei muito e o meu sonho, que não era ser um arquiteto em cidade grande, mas um arquiteto em Lavras, na cidade em que eu nasci, foi realizado”.

Por um tempo, montou um escritório com alguns colegas na capital mineira, que era mais uma sala de estudos. Mas logo respondeu ao seu chamado e “eu falo com muita satisfação que eu consegui me instalar em Lavras”, comenta, com muito orgulho ao falar de sua cidade natal. “Sou lavrense nascido e filho de lavrense, e criado aqui. Estudei fora, mas nunca desliguei de Lavras. Lavras é minha cidade do coração. Isso não tem dúvida, é minha terra, eu nasci aqui.” Foi professor da antiga Escola Superior de Agricultura da Lavras (ESAL), atual UFLA, prefeito do campus, secretário de obras do município, secretário de meio ambiente e regulação urbana, continuou fazendo seu trabalho de arquiteto regional, com trabalhos dentro e fora do estado.

Com todo esse carinho, Lavras recebeu o Dr. Evandro de braços abertos. Aqui batalhou para construir o seu nome, e a cidade retribuiu. “Gosto de Lavras até hoje, voltei para Lavras por opção, porque quis. Pela vontade de voltar. Quando voltei eu senti aquela felicidade de estar chegando de novo na minha terra e procurei, não sei se consegui, isso o cliente e a população é que vão falar, fazer arquitetura na minha região e dar àquilo o máximo que eu podia fazer na época, que é o meu sonho”.

Nesse momento, o relógio antigo de pêndulo toca as dez badaladas, indicando que já estávamos conversando há algum tempo. O Dr. Evandro me explicava que dos trabalhos mais recompensadores que havia feito eram, justamente, as residências especiais. “Foi na época em que eu mais militei na profissão. O cliente chegava e queria uma casa com todos os detalhes e todos os sonhos da época”.

No entanto, uma das obras que mais lhe toca é a Capela Ecumênica da UFLA.

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“Não é uma capela para grandes eventos, mas um espaço para meditação, e ali, com vários materiais, eu procurei representar as várias crenças. Por ser um espaço de sonho, de meditação, é um espaço que me toca muito”.

 O CANTINHO

“Eu vivo num espaço que eu sonhei. Eu realmente gosto de ficar aqui. Sinto bem dentro da minha casa. Gosto da minha sala, que dá para meu jardim. Eu curto a casa…eu gosto de plantar meus antúrios aqui”. Evandro mora hoje na casa em que um dia funcionou o consultório do pai.

Como parte de suas atividades do cotidiano, Evandro trabalha com sua empresa – da área de imóveis e loteamentos, que é dele e de seus irmãos. “Eu estou sempre me cuidando, tenho meu dia a dia ocupado. Não desliguei da arquitetura totalmente, mas estou sempre trabalhando com consultoria, na área profissional”.

 

SUA MARCA EM LAVRAS

dsc_2979O Dr. Evandro, que recentemente foi convidado para dar a aula magna no curso de arquitetura do Unilavras, mantém suas lembranças vivas, em diversas obras pela cidade. Para ele, “os tempos mudaram muito. Hoje o pessoal quer muito morar em apartamento, e eu fui de uma fase de residência unifamiliar”. É só passear pela rua Bernardino Macieira, que é possível ver várias casas que possuem sua assinatura.

A “avenida da rodoviária” é também uma de suas principais obras na cidade. O “Ouro Preto” foi o primeiro loteamento que Dr. Evandro e seus irmãos fizeram, ali na região da rodoviária. Quando abri a avenida, há mais de 40 anos, as pessoas falaram ‘você está louco, vai fazer uma avenida dessa largura, dando terreno para prefeitura?’, e eu respondia, ‘eu não estou louco não, eu estou pensando no futuro da cidade”.

Ao longo da conversa, vai ficando evidente o carinho e o conhecimento histórico que Evandro guarda de Lavras. Para ele, a nossa terra tem uma característica diferente por ser sempre uma cidade de jovens. A cidade, que nasceu sobre uma colina no cale do Rio Grande, foi criada por um expedição de bandeirantes, pouco antes da época do Império no Brasil. “Quando falam que Lavras é uma rua só, é justamente por ter sido desenvolvida pelas expedições de bandeiras. Mas, com o crescimento da UFLA, o surto de progresso foi descendo pela rua Santana. Hoje nós temos muitos outros bairros, que tiraram esse perfil de cidade de uma rua só. Lavras, hoje, é uma cidade de prestação de serviços, uma microrregião”.

Parece que o nosso encontro com o Dr. Evandro foi daqueles que ficam marcados. Jornalista adora aquelas “frases de efeito”, que parecem já vir prontas para o mundo ler. E nossa entrevista terminou com uma dessas: “Todo profissional tem que ter responsabilidade naquilo que faz. Tem que ter certeza de que está realizando um sonho. Toda profissão tem que ser feita com seriedade, com carinho e com responsabilidade, para que você alcance a qualidade do serviço prestado”.

“Todo arquiteto, se não for um sonhador,

não tem jeito”.


 

Perguntas que não podiam faltar!

 

Bebida preferida: um vinho é sempre agradável.

Um prato: varia muito, um bom peixe, uma boa carne.

Cômodo da casa preferido: a sala com a televisão, de onde posso ver o jardim.

Um livro: leio muita coisa de arquitetura, mas específico, li um agora muito interessante, 1808, sobre a vinda da família real para o brasil.

Um filme: cinema Paradiso.

Um hobby: viagem. Viagem é o seguinte. É você adquirir lazer e cultura ao mesmo tempo. Você aprende com muito mais facilidade do que você ler um livro.

Um lugar que visitou: Itália – sou descendente de italiano, já fui várias vezes. Lucca, cidade do meu avô, na região da Toscana.

Influências na arquitetura: Frank Lloyd Wright, Le Corbusier e Oscar Niemeyer.

Música: gosto de ópera, música clássica e erudita, Richard Wagner, Giacomo Puccini, Giuseppe Verdi.

 

 

Revista Ipê