Campeã brasileira de Cross Triathlon e top10 no ranking Panamericano

Por Camila Caetano
Fotos: Foco Radical


Natural de São Paulo, mas o coração e a alma de Lavras. É tanto amor envolvido que a triatleta Laura Mira, 31 anos, considera-se lavrense desde que chegou à cidade. Uma paixão à primeira vista. “Todos que me perguntam de onde eu sou, respondo: de Lavras”, comenta em entrevista à Revista Ipê.

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Além de atleta, possui formação em Agronomia pela Universidade Federal de Lavras (Ufla). “Eu tinha passado em Agronomia na Ufla e em Oceanografia no Rio Grande do Sul. Quando cheguei aqui, fui à praça, e me encantei pelas árvores Tipuanas, centenárias. No outro dia, indo à Universidade, avistei a Serrinha. Achei tudo tão lindo. Então, falei para o meu pai que tinha certeza que ficaria. Decidi o curso, a vida, por causa daqui”.

Em 2004, Laura iniciou a sua trajetória em Lavras. Chegou a sair por um tempo, mas sempre com a vontade de retornar. Em 2014, ela regressou, já como atleta profissional.

PAIXÃO E DETERMINAÇÃO

A primeira pergunta que todos fazem a Laura é a razão de ter se envolvido no esporte. Ela começou a nadar com dois anos, estimulada pelo pai, Miguel Dias, a treinar com cinco, e competir com sete. Na infância, em Barretos, passava a maior parte do seu tempo no clube e praticava tudo o que podia.

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Mas, não é apenas esta a razão. Ela nasceu com hidrocefalia, e toda a motivação que sua mãe, Ana Rita Mira, transmitira foi primordial para mantê-la sempre forte e focada. “Minha mãe estudou Terapia Ocupacional e Morfoanálise, e viu que havia algum problema no meu desenvolvimento. Enquanto os médicos não identificavam o que era, ela foi me estimulando. Aquela fase deixou uma forte mensagem em meu subconsciente: Você tem que ficar em pé, você tem que andar, você tem que ser forte”.

Laura comenta que esse período lhe permitiu ter mais vontade de viver. “Como atleta você recebe muito ‘não’, e eu poderia ter desistido várias vezes. Mas, a vontade de ir além e de cultivar minha saúde foram sempre maiores”.

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A hidrocefalia pode deixar várias sequelas motoras. Entretanto, Laura só possui desvios na coluna devido ao baixo tônus muscular no início de seu desenvolvimento. “Até os dois anos eu me desequilibrava ao andar, o que acabou causando estes desvios que sempre trabalhei para corrigir. Se for pensar geneticamente, não era para eu ser atleta. Mas, como eu sempre amei esportes, essas dificuldades não se tornaram grandes obstáculos.”

INICIANDO O TRIATLO

Quando chegou a Lavras, Laura não tinha muitas opções, então iniciou pela corrida. Depois, começou ir às aulas em uma bicicleta simples, com apenas três marchas pesadas funcionando, enfrentando diversas subidas íngremes. “Após um tempo juntando dinheiro, consegui comprar uma bicicleta um pouco melhor”.

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Unir as três atividades já não era algo tão difícil, e o grande impulso no triatlo foi em uma competição realizada na Ufla. “Éramos calouros, participei de todos os jogos. Um deles foi o triatlo, e acabei me apaixonando por este esporte”. Logo após, veio o convite do Lavras Tênis Clube (LTC) para participar da equipe de natação e, quando percebeu, já treinava todas modalidades.

ESPORTE COMO PROFISSÃO

Laura se profissionalizou em 2014. A motivação veio após ficar bem colocada em uma competição profissional. “Em 2012, resolvi participar do XTerra Costa Verde e me arriscar na elite. Fiquei em 3º lugar. Então, pensei: Vou treinar mais e ficar boa nisso. Em 2013, no primeiro ano que eu disputei como profissional, finalizei como vice-campeã do ranking nacional. Nessa época eu fazia pós-graduação, trabalhava e madrugava para treinar. Somente em 2014, em Lavras, que iniciei uma dedicação mais exclusiva como atleta”.

A cada ano Laura consolida mais a carreira. Já disputou mais de 200 provas como amadora e profissional. As profissionais totalizam em 63. Em 2013, das 15 provas que participou esteve no pódio 13 vezes; em 2014, de 13 competições só não foi premiada uma vez; em 2015, dos 22 campeonatos alcançou vitória em 19, além de 2016 que até o momento já foram 14 provas com 12 pódios.

Neste ano, disputou, além dos circuitos nacionais, três provas internacionais (México, Argentina, República Dominicana), e está classificada para a final Panamericana nos EUA. “Estes países fazem parte do Circuito Panamericano de Cross Triathlon (Xterra Panamerican Tour). Além destas, gostaria de chegar ao meu maior objetivo de disputar novamente, e de maneira mais madura e experiente, uma final mundial”. Para obter tantas vitórias, ela treina seis vezes por semana, de três a cinco horas por dia, alternando entre natação, corrida, bike, musculação e treinamento funcional direcionado. Também segue uma dieta cuidadosamente balanceada.

Entre tantas competições, sempre há uma mais marcante na vida do atleta. Laura começou sua carreira profissional no XTerra Costa Verde, em 2012, e por mera coincidência, a prova que mais lhe marcou emocionalmente foi a X Terra, também em Costa Verde, no ano de 2014. “O campeonato estava para ser decidido, e essa prova valeria o dobro de pontos. De última hora fiquei sabendo pela minha adversária que haviam mudado as regras. Chorei, liguei para o meu técnico, Douglas Miranda, e ele disse: Você se preparou muito para estar aí. Vai lá e vença! Mas tome cuidado para não deixar o emocional lhe abalar”.

A emoção interferiu, mas ainda assim ela venceu a competição. “Tive duas quedas fortes, a cerca de 40 km/hora. Cheguei à transição toda machucada. Comecei a sentir dor na metade da corrida. Após chegar à linha de chegada, fui ao hospital na mesma hora”.

Laura rompeu parcialmente o ligamento do ombro, trincou a costela, a mão e o queixo. Foi um ano de recuperação. Apesar de tudo, conseguiu treinar e competir. Chegou a disputar uma competição nadando com apenas um dos braços em pleno funcionamento. Um tempo após o acidente, ela se classificou como top 10 no ranking Panamericano de Cross Triathlon (XTerra) e se consagrou campeã da Ultra Maratona de MTB, Desafio Sertão Diamante (176km), e ainda campeã da KTR Serra Fina 16 km. Além disso, Laura se consagrou campeã em uma das edições mais esperadas do circuito XTerra Brazil Tour 2016 – a Estrada Real – realizada nos dias 24 e 25 de setembro em Tiradentes.


FICHA TÉCNICA

Laura Mira
Idade: 31 anos
Triatleta profissional desde 2014
Já disputou 63 provas profissionais
@laurinhamira

Revista Ipê