A CIDADE DOS IPÊS, DAS ESCOLAS E DE HISTÓRIAS ENGRANDECEDORAS

Por Camila Caetano
Apoio da Secretaria de Cultura de Lavras


Mais um aniversário de Lavras é celebrado. E poucos sabem que a cidade não é tão jovem como se imagina.
Alguns comemoram neste ano os 185 anos de Lavras, outros 148, mas, de fato, ela já completou seus 296 anos. Pode parecer algo complicado de entender, por isso a Revista Ipê traz nesta edição a explicação dessa particularidade e ainda outros acontecimentos curiosos de Lavras.

ANIVERSÁRIO DE LAVRAS

Há algum tempo o aniversário de Lavras era comemorado em 20 de julho, data em que ocorreu a elevação da Vila de Sant´Ana das Lavras do Funil à categoria de cidade, em 1868.

Já na década de 80, o prefeito Maurício de Pádua fez a alteração para 13 de outubro, data em que o arraial de Lavras do Funil havia conquistado a posição de vila, em 1831, passando a contar com uma Câmara Municipal. Um marco na sua emancipação política.

De acordo com a Secretaria de Cultura, todos esses períodos revelam a emancipação política da cidade, mas não apresentam de fato a sua fiel origem. Assim, após intensas pesquisas, foi aprovada, em 14 de junho de 2012, a lei municipal nº 3.845, que estabeleceu uma nova data de fundação de Lavras: 26 de julho de 1720. O dia é em homenagem à Sant’Anna, padroeira da cidade, e o ano por conta dos primeiros registros do povoamento da cidade em torno da Igreja do Rosário. Sendo assim, em 2020, Lavras completará na verdade seus 300 anos.

Apesar de ter sido estabelecida uma nova data, por enquanto, Lavras ainda mantém a tradição de celebrar o aniversário da cidade em 13 de outubro.

IGREJA DO ROSÁRIO

Conta a história que o bandeirante Romualdo Pedrosa da Costa Lima afogou-se na cachoeira do Funil do Rio Grande, aparecendo somente após um dia e uma noite. Para mostrar a todos o milagre, ele colocou na colina do Pouso do Funil uma imagem de Sant’Ana, santa de sua devoção e padroeira de sua bandeira. Após um tempo, ocorreu o primeiro marco da história de Lavras, a construção de uma simples capela, como pagamento da promessa do bandeirante, em 1698.

Há relatos que a Igreja do Rosário foi construída entre 1720 e 1729, no mesmo local dessa primitiva capela de madeira. Nesta época era conhecida como a Capela de Sant’Ana das Lavras do Funil.

Um pequeno arraial foi se desenvolvendo em torno da capela. Com o crescimento, os bandeirantes entregaram ao bispo de Mariana, Dom Frei Manoel da Cruz, um documento pedindo a autorização para edificar o povoado Campos de Sant’Ana das Lavras do Funil, sendo obtida em 18 de setembro de 1751.

2_2_1O Bispo de Mariana oficializou a capela em 1754, e em 1810 ela passou por mudanças e foi ampliada. De acordo com dados históricos, próximo ao altar só ficavam os senhores mais prósperos; no meio da igreja, os de poucas posses e os negros, e já nos fundos os não batizados e que não eram católicos.

Outro marco curioso é que no fundo do altar da Igreja do Rosário foram enterradas várias pessoas. “Conseguimos em Carrancas, na Matriz, localizar no seu livro de registro, nome de cinco pessoas que foram sepultadas dentro da Matriz de Sant’Ana em Lavras, hoje Igreja do Rosário. Os documentos que confirmam os dados dessas pessoas estão guardados, lá pois, no período que aconteceu o fato, Lavras era freguesia de Carrancas”- afirma a Secretaria de Cultura, em documento.

BANCO DA PRINCESA ISABEL

O rei D. Pedro e sua filha Princesa Isabel começaram a fazer a rota do ouro em Minas Gerais. Assim que souberam das riquezas em Sant’Ana das Lavras do Funil avisaram que viriam conhecer o povoado.

2_2Os bandeirantes tomaram diversas providências para a chegada da família real. Chegaram a construir uma sacada dentro da Igreja do Rosário para que o rei pudesse ficar durante uma celebração especial. Também fizeram um banco especial, luxuoso, que ficaria à disposição da princesa Isabel. Este banco, hoje, fica em exposição na lateral da Igreja.

“Os bandeirantes preocupados com a chegada da família real prepararam tudo, só faltavam os visitantes: à tardinha veio a notícia de que haviam chegado na Vila de São João Del Rey, mas que não poderiam chegar a Lavras porque um de seus sobrinhos tinha sido assassinado no Rio de Janeiro e precisavam ir para lá com muita urgência. E assim aconteceu. Foram para o Rio e Lavras ficou na história de não ter recebido as ilustres visitas”- retrata a Secretaria de Cultura.

TELA VERÔNICA, PRIMEIRA DO BRASIL

Outro fato enriquecedor sobre Lavras e que está prestes a chegar ao fim é sobre a tela conhecida como “Verônica”, do século 18. Depois de muito tempo de espera, a expectativa é que ela volte à cidade, para a Igreja do Rosário.

vero%cc%82nicaMedindo 1,20 metro de altura por 60 centímetros de largura, a obra de autoria desconhecida esteve no acervo do Museu de Arte de São Paulo (Masp) por cerca de 12 anos. Muito antes disso, ela ficava na Igreja do Rosário, até aproximadamente 1950, quando um estudante do Instituto Gammon, após vê-la abandonada no meio de uma obra, pediu que o vigia da Igreja lhe entregasse, alegando que o local não oferecia a segurança necessária, que o quadro poderia desaparecer em pouco tempo. Convencido dos argumentos do estudante, o vigia cedeu e acabou lhe conferindo a obra, que foi restaurada e doada ao Masp.

“O estudante, William Daghlian, é um grande músico, mora nos Estados Unidos. Depois de anos, ele contou essa história. Nós tivemos conhecimento e entramos com uma ação no Ministério Público, solicitando a devolução. A tela já foi devolvida, e hoje está em Belo Horizonte. Fizemos uma solicitação para fazer a restauração da mesma e trazê-la para a Igreja do Rosário. A empresa responsável pela restauração pediu cinco meses para concluir o trabalho”, relata a presidente do Conselho do Patrimônio, Clarice Maria Pacheco Gomes.

De acordo com Clarice, para que a tela possa retornar a Lavras será preciso fazer uma reforma na Igreja do Rosário. Segundo ela, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) conseguiu que a restauração seja realizada. “Estudos mostram que ela é a primeira tela pintada no Brasil”, comenta Clarice.

ENFORCAMENTOS EM LAVRAS

De acordo com o historiador Ary Florenzano, o Cruzeiro de Lavras, localizado na Praça Zumbi dos Palmares, à Rua Cristiano Silva, era um local onde se executavam centenas de enforcamentos. Dados mostram que o último enforcamento foi realizado no dia 26 de junho de 1839. Há ainda relatos que ao lado do Cruzeiro existia uma árvore, em que em um dos seus galhos era feita a corda utilizada nos enforcamentos.

Furtunato era o lavrense que executava as sentenças. Os valores das execuções variavam de acordo com a vítima. O último enforcamento tratava-se de um lavrense chamado Joaquim Congo, que havia assassinado José Pimenta, a foiçada.

O atual Cruzeiro não é o original. O primeiro caiu após uma forte tempestade em 29 de maio de 1896. Após um tempo foi construído outro no mesmo local, a pedido do padre Henrique Lacoste, que também acabou por ser derrubado. Posteriormente, em 1956, houve a construção do atual, em estrutura de concreto.

Com 6 metros de altura e 3 de extremidades, atualmente, o Cruzeiro é um majestoso símbolo de fé. No centro da cruz, no encontro dos seus eixos, há uma coroa de espinhos e uma flecha, representando a paixão de Cristo. Alicate, martelo e escada foram aplicados nas extremidades, de maneira desigual, representando os construtores do cruzeiro. Há ainda um véu no eixo central, simbolizando uma cruz de penitência.

CIDADE DO BONDE

A linha do bonde elétrico foi construída em 1910. No mesmo ano, foram adquiridos os dois carros de 11 bancadas de dois eixos da Waggonfabrik Falkenreid, da Alemanha. Assim que chegaram a Lavras, o povo local empurrou os carros para o trilho.

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credito: Wagner Gonçalves – IPHAN / Lavrastur

Os serviços de bonde iniciaram em 21 de outubro de 1911. Durante o 1º semestre de 1938, o bonde transportou 128.439 pessoas, de acordo com um relatório da Prefeitura de Lavras.

Uma elaborada estação foi construída na Praça Barão de Lavras, no centro da cidade, para o embarque no bonde. “Lavras se torna conhecida em toda Minas Gerais como a ‘Cidade do bonde’”- declara, em documento, a Secretaria Municipal de Cultura.

O bonde parou de funcionar em Lavras em 8 de novembro de 1967. Dos postes que recebiam a fiação usada para o funcionamento do antigo bonde que fazia o transporte de passageiros, restam apenas quatro na cidade, que foram tombados como patrimônio. Eles possuem 7 metros e ficam na área central da cidade: na Rua Santana, próximo a Casa da Cultura; na Praça Dr. Augusto Silva; na Rua Francisco Sales, e na Rua Otacílio Negrão.

“Na base do poste localizado próximo ao prédio da Casa da Cultura na Rua Santana, possui uma placa indicativa com as inscrições referentes ao ano de sua função e a sua importância para a história do município de Lavras”- retrata a Secretaria Municipal da Cultura.

LAVRAS, GAMMON E UFLA

Como falar da história de Lavras sem mencionar personalidades como Samuel Gammon. Ele foi responsável pela mudança do Instituto Presbiteriano Gammon para Lavras, e o idealizador da Escola Agrícola, atual Universidade Federal de Lavras (Ufla).

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credito: arquivo do Pró-Memória Instituto Presbiteriano Gammon

Samuel Gammon chega ao Brasil em 1889, para incrementar o corpo docente do Instituto Internacional de Campinas. Mas, após um surto de febre amarela na cidade, os missionários Gammon seguem em viagem por Minas Gerais para encontrarem um novo local. Assim que chegam a Lavras, percebem a fertilidade da terra e o clima agradável, resolvendo voltar para se estabelecerem de vez.

Em 1892, instalam-se em Lavras. O escritor João Castanho Dias conta em seu livro ‘A Terra prometida de Lavras’ que inicialmente os habitantes de Lavras ficaram desconfiados dos recém-chegados, contudo, com o tempo perceberam que “os presbiterianos não estavam apenas interessados na pregação do seu credo, mas também na formação moral e escolar da juventude. Refeitos da rejeição que não houvera na cosmopolita Campinas, eles já se sentiam em casa, estando prontos para oferecer à comunidade de Lavras os serviços para os quais deixaram os confortos da terra natal”- retrata o escritor.

Samuel Gammon era um homem visionário. À frente do seu tempo. O projeto educacional desenvolvido por ele e seus missionários foi de relevante valor social, contribuindo de maneira expressiva no crescimento de Lavras.

Idealizou a Escola Agrícola, fundada sob o lema do Instituto Gammon (“Dedicado à glória de Deus e ao Progresso Humano”), que, em 1938, passa a ser chamada de Escola Superior de Agricultura de Lavras (Esal). A federalização ocorreu em 1963. Mas, foi somente em 1994 que a instituição tornou-se universidade, Ufla. Essa trajetória teve início com a concretização dos ideais de Samuel Gammon, e de seu primeiro diretor, Benjamim Harris Hunnicutt.

Samuel Gammon não conseguiu desfrutar da concretização de todos os seus projetos. Faleceu em 4 de julho de 1928, aos 63 anos. “Nas exéquias da manhã seguinte, o comércio de Lavras cerrou as portas, as escolas suspenderam as aulas. O Royal Circo e o Cinema Internacional cancelaram as sessões. Uma massa popular seguiu seu corpo até o cemitério onde foi enterrado junto do jazido de Carlota Kemper”- trecho extraído do livro ‘A Terra prometida de Lavras’, de João Castanho Dias.

A CIDADE DOS IPÊS E DA ESCOLA

E para finalizar os dados peculiares de Lavras, a Revista Ipê não poderia deixar de mencionar o fato de Lavras ser conhecida por muitos como a “terra dos ipês e das escolas”. Tudo começou em 24 de agosto de 1941, quando o jornalista e poeta Jorge Duarte publicou um poema sobre a cidade no jornal A Gazeta:

“Lavras, cidade dos ipês e das escolas… Há uma grande semelhança entre os ipês e as escolas, na minha terra natal. Ninguém dá importância aos ipês, durante o ano inteiro, viúvos de folhas, órfãos de flores, parecendo esqueletos vegetais. As raízes vão realizando o seu trabalho anônimo de armazenar energias, para a grande surpresa de agosto. É então a festa dos ipês, em uma orgia de cores deslumbrantes.

Assim também as escolas. Durante o ano inteiro os nossos mestres preparam silenciosamente, anonimamente, os seus alunos, sem despertar a atenção para a sua obra. Em novembro, quando as festas finais se realizam, é que aparecem as flores da inteligência – resultado de um labor fecundo. Os ipês florescem em agosto. As escolas florescem em novembro”.

UMA CIDADE RECEPTIVA

De acordo com a última atualização do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Lavras possui 101.208 habitantes (sem contar a população flutuante) e área territorial de 564,744 km². Mas, ainda assim, preserva o seu aspecto interiorano, de intensa cordialidade.

Uma cidade considerada receptiva para muitos que vieram de outras localidades. Há aqueles que já se consideram lavrenses, por conta do total vínculo afetivo com a cidade e seus habitantes, como Luciana Alves Reidler, proprietária da loja Ninar. Natural de Bom Sucesso, ela já morou em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e até mesmo Suécia, mas há cinco anos em Lavras ela não pretende sair da cidade.

Formada em Direito, Luciana resolveu interromper a sua carreira como advogada, quando residia na Suécia, e retornar para Minas após perder seu único irmão. “Escolhi Lavras por ser uma cidade que tem infraestrutura, com boas escolas, hospitais, e perto de Bom Sucesso, onde está a minha família. Aqui, tive várias ajudas. Meu filho nasceu prematuro, ficou muito tempo na Santa Casa, e criei um enorme vínculo, fiz muitas amizades. Além disso, a Ufla também me auxiliou nessa nova etapa como empresária, com consultorias a um custo menor. Hoje, me fixei em Lavras e pretendo continuar aqui”, comenta.

Revista Ipê