Há os que batem com o dedo no paralamas e criticam a chapa: “uma lata de sardinha que desmancha na primeira batida”….

A imprensa notícia acidente grave: o carro rodou, saiu da estrada e despencou de um barranco. Mas os três passageiros saíram quase incólumes, apenas com ferimentos leves. Verdadeiro milagre!

Num outro, o carro escorrega na curva, sai do asfalto, cruza o acostamento e bate no barranco. Dá perda total, mas o motorista e sua esposa saem inteiros do acidente. “Santo Forte”, comentam as testemunhas…

O caminhão com 30 toneladas vem na descida, perde o freio, bate em mais de vinte carros enfileirados num congestionamento. Nem mortos nem feridos graves, só algumas ligeiras escoriações. Título do texto do jornal que descreve o acidente: “Milagre no asfalto”.

Milagre coisa nenhuma. Ou, se foi, é fácil determinar o “santo”: as centenas de engenheiros que passaram milhares de horas projetando carrocerias programadas para se deformar, virar uma sanfona na frente e atrás, protegendo porém a célula de passageiros. Num acidente, as forças resultantes do impacto são orientadas para não comprometer a estrutura da cabine. Dezenas de materiais, ligas, aços e outros metais de alta resistência são analisados e testados. Simulam acidentes nos computadores, em testes de impacto frontal e lateral, os “crash-tests”. Colocam equipes nas estradas que acompanham a polícia quando ocorre um acidente, para analisar in loco as consequências. No caso de impacto frontal, as colunas de direção foram projetadas para evitar que avancem no habitáculo esmagando o motorista. E os motores, para “mergulhar” em direção ao asfalto e não investir contra os passageiros. Portas contam com barras laterais de proteção. Air-bags e cintos de segurança com pré-tensionadores pirotécnicos e painéis acolchoados. Parabrisas laminados que mantem a visibilidade mesmo depois de danificados. Explicado o milagre?

Se alguém duvida, basta lembrar que de nada adiantava, no passado, aqueles Buickões com enormes e pesados parachoques cromados, lataria com aço de grande espessura e pesando duas toneladas, mas que costumavam matar os ocupantes mesmo ao se envolver em pequenos acidentes. Às vezes, uma ligeira batida no carro da frente era o suficiente para a coluna de direção enterrar o volante no peito do motorista.

Os carros atuais passam a impressão de fragilidade. Os descrentes da tecnologia batem no paralamas de um compacto moderno e se sentem no direito de criticar a chapa: “parece uma lata de sardinha que vai desmanchar na primeira batida”.

Além disso, se dispositivos de segurança passiva reduzem as consequências do acidente, os de segurança ativa evitam que ele aconteça. Se o carro rodou na curva e bateu no barranco é porque não tinha o Sistema Eletrônico de Estabilidade (ESC). O outro escorregou na pista molhada e bateu na traseira do que estava à frente porque não contava com freios ABS.

E, se não teve o “santo milagreiro” por perto, quase sempre dá para explicar o porquê das vítimas fatais: é o acidente provocado pela irresponsabilidade compartilhada entre a ignorância do motorista e passageiros. Que não se preocupam com cintos afivelados no banco traseiro. Por quê a única vítima fatal de um acidente foi “cuspida” do carro? Porque não usava o cinto!

O que faziam a Lady Di e seu namorado que morreram – sem os cintos – no banco traseiro do Mercedes, mas quem ia no dianteiro sobreviveu?

E o excesso de passageiros: jornal noticia que perua Opala Caravan sofre grave acidente na estrada que resultou em três mortos e cinco feridos. Ninguém se deu ao trabalho de contar oito pessoas num automóvel que pode carregar motorista mais quatro passageiros no máximo. A Caravan tinha suspensão e freios para levar tanto peso? E cintos de segurança para todos?

 

Revista Ipê