A história de grandes mulheres presentes na Casa do Vovô em Lavras.

Em funcionamento desde 24 de outubro de 1999, a Casa do Vovô, em Lavras, é uma entidade filantrópica destinada a acolher e assistir idosos. Conta com uma equipe de 30 funcionários, entre eles cuidadores, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, médicos clínicos e técnicos de enfermagem, além do trabalho de voluntários no bazar beneficente e outros que participam das atividades do dia a dia.

A Casa do Vovô permite a moradia de cerca de 50 idosos em período integral em condições de dignidade, cidadania e respeito. Para esta edição, a Revista Ipê visitou o local e conversou com algumas mulheres que sempre estiveram à frente do tempo, conquistando a independência financeira e destacando-se nas diversas profissões.

Pianista, compositora do hino de Lavras, formada em Pedagogia e Teologia. Azená Oliveira, 75 anos, fez parte da história de diversas pessoas de Lavras e toda a região, seja em casamentos, formaturas ou bailes.

A paixão pelo piano começou ainda criança, aos quatro anos. Com o passar do tempo foi se aperfeiçoando e estudando cada vez mais. A dedicação foi extrema, passando a ministrar aulas na cidade por cerca de 30 anos. Azená conta que seu maior parceiro de música foi Paulo Oliveira Alves, mais conhecido por Paulo Piano.

Hoje, aos 75 anos, Azená ainda mantém todas as habilidades. Ela considera que o hábito pela leitura foi o que sempre lhe proporcionou vivacidade. “Fecho os olhos e sinto a música e simplesmente tiro as suas notas. Esses dias me pediram para tirar uma bossa nova. Disse que levaria uns três meses, pois é mais complexo. Mas, ao iniciar, levei apenas meia hora. Até me belisquei para saber se era verdade, se eu ainda estava viva”, conta em risos.

Azená não perde tempo. Já está adepta às novas tecnologias e as utiliza a seu favor. “Há 43 anos eu estava atrás da música ‘Até o fim’ de Vinícius Cantuária. Como ganhei um celular, mandaram-me pelo whatsapp. Agora só falta tirar as notas”, comenta satisfeita.

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Ruthi Costa de Freitas, Bernardina Maria de Oliveira, Inis Carvalho e Azená Oliveira

Uma mulher independente, sempre à frente do seu tempo. Casou-se em 1963 e pediu o divórcio em 1969. “Casei sem amá-lo, por isso pedi a separação. Lembro-me que foi o quarto divórcio de Lavras. Tenho quase certeza que fui a primeira mulher da cidade a tomar essa iniciativa. Pensa em um escândalo, agora multiplica por mil. Foi assim, mas fiz o que queria”.

Preconceito. Azená conta que foram diversos. Desde a sua remuneração, que era inferior a de um músico homem, até os momentos em que tocava sozinha em determinados eventos. “O que não faltavam eram cantadas, simplesmente por eu ser uma mulher” E hoje, ela deixa um conselho: “Não se deve desvalorizar uma mulher, porque a mulher não tem uma vida fácil”.

As pianistas Azená Oliveira e Dineia Modesto Oliveira

As pianistas Azená Oliveira e Dineia Modesto Oliveira

Além de Azená, a Casa do Vovô conta com diversas outras mulheres que sempre foram independentes e satisfeitas com as profissões que escolheram, como Ruthi Costa de Freitas, 80 anos, costureira. Ruthi conta orgulhosa que conseguiu comprar sua casa com a renda que obtivera na costura. Durante toda a conversa, ela dizia “Amo trabalhar, sempre gostei. Acho que já até descansei demais aqui na Casa do Vovô, estou pensando em retornar à minha casa e voltar a costurar. Por isso sempre falo que a mulher deve procurar a sua profissão e ser independente”.

Bernardina Maria de Oliveira, 80 anos, foi costureira e enfermeira. Ela compartilha da mesma vontade: “Adorava a enfermagem, se pudesse queira estar trabalhando”. Bernardina conta que na época o seu marido não gostava muito da ideia de ter a esposa inserida no mercado de trabalho, por isso, sempre discutiam sobre o assunto. “Mas, não tinha outro jeito, só a renda dele não era suficiente. E é muito bom ser independente”.

Inis Carvalho, 78 anos, foi telefonista em Belo Horizonte. Trabalhou em hospitais, faculdades, etc. Independente, também não pensou duas vezes ao ver que o casamento não tinha sido bem sucedido. Ficou casada por apenas dois anos. “Quando vi que não daria certo, pedi logo o divórcio. Depois tive outros namorados, mas nada demais. Gostava muito de trabalhar e quando tinha uma folga ia aos bailes dançar. Até que seria bom ter uns bailes aqui na Casa do Vovô, pois ainda estamos vivas”, comentou sorrindo.

Azená, Ruthi, Bernardina, Inis, dentre tantas outras mulheres visionárias estão presentes na Casa do Vovô. São cerca de 20 mulheres, que aproveitam o tempo para aprender outras atividades, como artesanato. Sempre à procura do novo, independente da idade. Inúmeras histórias que representam as conquistas alcançadas pelas mulheres de garra.


Por Camila Caetano
Fotos: José Henrique / Cia da Foto


FICHA TÉCNICA

Núcleo Assistencial Casa do Vovô

Rua Francisco Barros, 11, bairro Serra Verde.

Contato: 3822.1651

Tele-doações: 3822.8867

casadovovolavras@gmail.com

Revista Ipê