Qual é o melhor: o filme ou o livro? Quantas discussões já não começaram com essa pergunta? Não é engraçado que mesmo sabendo que cada um desses meios conte a história de um jeito diferente, ainda nos pegamos fazendo perguntas como essa?

Não é à toa que o cinema é considerado a sétima arte. Desde seu nascimento, ele é uma “junção” de características de outros meios de arte e comunicação que já existiam. A sequência de fotografias reproduzidas em alta velocidade, que criam a ilusão de movimento; a linguagem e o ponto de vista teatral, que os primeiros filmes reproduziam, já que ainda não sabiam muito bem como manipular a imagem em movimento; a fábula, que já encontrávamos na literatura, como a forma predominante no cinema para contar histórias; e posteriormente a música, como ferramenta para propor sentidos e emoções dentro das cenas. Poderia continuar aqui citando diversas outras áreas que compõem, de forma geral, a mise-en-scène cinematográfica.

Fato é que o cinema se desenvolveu como uma linguagem própria, rica e muito complexa. Enquanto a literatura narra pela palavra impressa (ou oral), o cinema narra pelo corte dentro da cena e pelos elementos que compõem a encenação. Sendo dois meios que se expressam de forma tão diferente, por que ainda insistimos em falar de adaptações literárias para o cinema? Será que estamos apenas adaptando uma história que existe ali ou será que estamos fazendo todo um novo esforço para recriá-la utilizando outras linguagens?

Um grande amigo, em sua dissertação de mestrado, defende a ideia que para o cinema não se adapta, mas se recria. Ao pegar um livro e produzirmos sua versão audiovisual, estamos recriando a história desse livro, que se tornará um novo objeto cultural, uma nova maneira de se olhar para a fábula ali contida.

Essa ideia talvez coloque panos quentes nas velhas discussões de quão fiel foi o diretor ao livro, ou isso que acontece no livro ficou de fora dos filmes. Os fãs mais fervorosos poderiam ficar mais calmos e ainda mais felizes em poder usufruir dois produtos diferentes sobre a mesma obra.

Passando pela história do cinema é muito fácil encontrar essas recriações. De clássicos como “E o Vento Levou” às obras-primas de um dos melhores diretores do cinema e que adorava se basear em literatura, Stanley Kubrick, passando pelos infinitos filmes que se debruçam sobre os terrores de Stephen King, ou mesmo aos enormes universos cinematográficos vindos das Histórias em Quadrinhos (HQs). As recriações criaram todo um novo imaginário. Mais recentemente, podemos citar legiões de fãs da literatura juvenil obcecadas por Harry Potter ou Jogos Vorazes, por exemplo.

A magia está na possibilidade de, ao lermos um livro, criarmos todo aquele mundo em nossas mentes e, ao vermos o filme, poder ver como outras pessoas criaram esse mundo. São várias obras de arte sobre o mesmo objeto, e acho que só temos a ganhar com isso!

Para falar de algumas dessas recriações que valem a pena, segue a minha lista de alguns filmes dos muitos preferidos!

APOCALYPSE NOW
(Francis Ford Coppola, 1979)

xkygeceznwnci14caxhwobv4e6gFiquei em dúvida se colocava ou não dois filmes do mesmo diretor. Francis Ford Coppola dirigiu duas das melhores recriações do cinema: o citado Apocalipse Now, e o eterno clássico O Poderoso Chefão (do livro “O Chefão”, de Mário Puzo). Acabei optando por falar do Apocalipse Now, por se tratar de um caso de ainda mais liberdade criativa. O filme foi inspirado no livro “No Coração das Trevas”, de Joseph Conrad, que conta a história de um empregado de uma companhia mercante que é mandado para a África para levar de volta à Bélgica um comerciante de marfim que se rebelou. Publicado em 1899, o livro perpassa o genocídio no Congo durante sua colonização. Para o filme, Coppola se aproveita do contexto histórico-cultural da época e “transfere” a história para a Guerra do Vietnã. Durante a guerra, um capitão é enviado a uma missão na selva do Camboja para exterminar um coronel que “perdeu a cabeça” e se proclamou deus de uma tribo. O filme imediatamente se tornou um clássico, pelas incríveis cenas de guerra e por abraçar a loucura dos personagens nesse meio cheio de horror!

LAVOURA ARCAICA
(Luiz Fernando Carvalho, 2001)

Lavoura-ArcaicaO diretor Luiz Fernando Carvalho sequer escreveu roteiro para a produção desse filme, baseado no livro de Raduan Nassar, de 1975. Ele utilizou o próprio livro e uma imersão de quatro meses com os atores em uma fazenda para filmar as cenas por meio de improvisações. O resultado deu muito certo! Conheço poucos filmes tão intensos como o Lavoura Arcaica, que trata de um tema tabu na sociedade. Interpretado por Selton Melo, o filme (nesses termos é bem “fiel” ao livro) conta a história de André, um jovem que foge para a cidade, rebelando-se contra os valores e a autoridade do pai e com a vida que tinham na fazenda. Ao ser encontrado por seu irmão em uma pensão, em delírio, André vai narrando episódios de sua vida que o levaram a tomar essa decisão. No filme, Carvalho se utiliza de recursos cinematográficos riquíssimos para transmitir aquele “clima” do livro, que por si só já é bem descritivo. Com certeza uma das minhas recriações favoritas.

A TRILOGIA O SENHOR DOS ANГIS
(Peter Jackson, 2001, 2002 e 2003)

senhor_aneis_posters_cartazesA saga que rendeu uma trilogia nos cinemas e a criação de um universo cinematográfico próprio vem de uma enorme brochura com mais de mil páginas em algumas edições. Os livros foram escritos por J. R. R. Tolkien, nos anos 1930 e 1940, mas publicados nos EUA somente na década de 1950. A Sociedade do Anel, As Duas Torres e O Retorno do Rei são os três livros que constroem todo um imaginário sobre a Terra Média, um lugar mítico, com criaturas fantasiosas, que precisam vencer a guerra contra o mal. Para isso, precisam destruir um anel que dá vida e poder a Sauron, a criatura maléfica que deseja escravizar o mundo. Assim, é formada uma sociedade de hobbits, elfo, anão, humanos e mago para levar esse anel à montanha onde foi forjado, pois é o único lugar em que pode ser destruído. A premissa, lida assim, pode até parecer boba, mas Tolkien, e depois Jackson, criam um universo tão fantástico, complexo e visualmente interessante, que contagia legiões de fãs.


marinaMarina Alvarenga Botelho
Jornalista e especialista em cinema

Revista Ipê