Nem só de bem-te-vis vive Paulo Hugo Morais Sobrinho, mais conhecido como Paulinho Pedra Azul, natural de Pedra Azul, no Vale do Jequitinhonha MG. O poeta, músico e compositor também é autor de 15 livros (10 são independentes) e 200 telas a óleo e acrílico; além disso, já atuou no cinema e possui um rico portfólio musical com 22 discos produzidos durante seus 30 anos de carreira.

Por Amanda Castro
Fotos: Ludimila Loureiro


IPÊ – O Vale do Jequitinhonha, região em que você nasceu, contribuiu de alguma maneira para sua vida artística?
PAULINHO – O Vale do Jequitinhonha é minha inspiração mais profunda. Significa minha raiz, de onde vim, o que trago de lá, as referências mais humanas, enfim, minha fonte permanente de inspiração.


IPÊ – Sua família, também formada por artistas (artes plásticas, literatura e música), te influenciou a seguir a carreira de músico?
PAULINHO – Minha família sempre influenciou todos nós (8 irmãos). Tivemos todos, o apoio dos nossos pais, para trilharmos nossos caminhos. Um é design e Reitor da UEMG (Dijon de Moraes), 2 são decoradoras (Graça e Socorro), 2 são artesãos (Carlos e Meire), um é comerciante (Marcos) e o mais novo que é contador de causos e um verdadeiro showman, mas preferiu cuidar dos nossos pais, que já estão acima dos 80 anos.


IPÊ  – Como foi o início da sua carreira?
PAULINHO – O início da minha carreira foi ainda pequeno, na minha cidade de Pedra Azul (daí o nome artístico). Começou com festivais, teatros, etc.


IPÊ – Como se deu a mudança de largar o curso de Jornalismo e mudar para São Paulo?
PAULINHO – Passei na FAFHI (MG) em Jornalismo, mas fui para São Paulo e nem comecei o curso, mas não me arrependo, pois minha carreira seria ligada à música mesmo e eu já tinha essa certeza e vontade.


IPÊ – Em várias composições você faz menção a pássaros, infância, coisas da terra. O que te inspira, para compor, escrever e pintar?
PAULINHO – Minha vida foi ligada à natureza de uma forma muito especial. Nasci no interior e íamos nadar nos rios, andar pelas pedras e montanhas, contemplar a lua e as estrelas; tudo isso foi formatando e me dando inspirações também muito naturais. A relação humana é a base do meu trabalho.


IPÊ – Quando você começou a pintar? Você comercializa suas telas ou produz por prazer?
PAULINHO – A pintura foi a primeira que surgiu. Desenhei mais de 100 casas de Pedra Azul, pintei mais de 200 telas a óleo, várias em acrílica, mais de 1000 desenhos com lápis, lancei 15 livros de poesia, mas o que predomina mesmo é a música. Tudo isso faço com prazer e sobrevivo disso.

Ludmila Loureiro Portraitist

IPÊ – Você já trabalhou como ator. Como foi essa experiência?
PAULINHO – Como ator, foi uma brincadeira. Um amigo (Breno Milagres), me convidou para participar de um filme dele e fui para me divertir. Acabei participando de mais 3, sendo sempre o Alécio, dono de um boteco…rsss…agora ele quer fazer um filme com o nome O bar do Alécio, onde acontecerão vários encontros e diálogos. Vamos ver! rsss…


IPÊ – Até o momento, você já gravou quantos discos e DVD’s? Qual deles mais mexeu com você?
PAULINHO – São 22 discos gravados e 1 DVD, que está em fase  de edição e mixagem, onde comemorei 30 anos de carreira, com participações especiais de Padre Fábio de Melo, Rogério Flausino, Célio Balona, Grupo Sarau Brasileiro e uma banda fantástica com 7 músicos. Meu melhor trabalho ainda está por vir! Assim espero!


IPÊ – Qual é a música mais importante do seu repertório?
PAULINHO – Dizem que a música mais importante do cantor/compositor é aquela que não pode faltar num show, então eu acredito que seja o Jardim da Fantasia (Bem-te-vi). Canto-a com o maior prazer, como se fosse a primeira vez!


IPÊ – Qual a inspiração para a música Jardim da Fantasia?
PAULINHO – A música Jardim da Fantasia foi inspirada na minha primeira namoradinha em Pedra Azul, quando mudei da cidade e fui para Vitória (ES), onde fiquei um ano e fiz meu primeiro show na cidade de Nova Venécia. Existe um mito de que foi feita para uma noiva minha que faleceu, mas não é verdade. Apenas mais uma estória do povo, que, aliás, nunca me incomodou!


IPÊ – Qual é a sua relação com o Clube da Esquina? Há alguma parceria com algum deles para projetos futuros?
PAULINHO – O Clube da Esquina é a maior fonte de inspiração para quem quer viajar em sonhos que nunca envelhecem! Fiz uma música com Lô Borges, outra com Toninho Horta e convidei o Tavinho Moura para cantar num dos meus discos. Mandei uma letra para Flávio Venturini, comecei a compor outra com Murilo Antunes, poucas coisas, mas basta pra mim a amizade e o respeito que tenho por todos eles. Me inspiram e são artistas além do tempo, da mídia, das viagens e dos sonhos.


IPÊ – Há rumores de que você pretende lançar um documentário sobre a sua carreira. Esse projeto está sendo realizado?
PAULINHO – Fizemos um projeto interessante sobre um possível curta metragem que contasse a minha vida até aqui. Arranjamos um grande patrocinador, mas, por incrível que pareça o projeto não foi aprovado. A CULPA foi minha por não ter continuado INDEPENDENTE; e olha que foi o PRIMEIRO PROJETO que apresentei! Nasci para ser INDEPENDENTE e com muito orgulho.

Ludmila Loureiro Portraitist

IPÊ – Qual a sua opinião sobre o atual contexto da música do Brasil, tendo em vista a crescente valorização da música comercial em detrimento da música cultural?
PAULINHO – A verdadeira qualidade da música brasileira vai muito bem; a grande mídia é que vai MUITO MAL. Só isso!


IPÊ – Por que você prefere trabalhar seus discos de forma independente que por meio de gravadoras? Quais os desafios e vantagens em ser independente?
PAULINHO – A vantagem de fazer um trabalho INDEPENDENTE, é que ele sai quando você quer. Os que são feitos de outras formas, saem quando capta-se o dinheiro ou se for aprovado pelas leis de incentivo. Não tenho paciência pra isso e quero meu trabalho lançado no momento que estou naquela inspiração e expectativa. Se não tomarem cuidado, o artista viverá em função de leis e não de realizações espontâneas.


IPÊ – Você se preocupa em renovar e ampliar o seu público? Como?
PAULINHO – O público se renova, quando você está sempre se renovando e marcando presença. É como um comerciante que em cada momento lança um novo produto, dando continuidade ao seu trabalho. As pessoas gostam de novidades e temos que nos adaptar a essas expectativas, produzindo sempre e sendo coerentes com a continuação do nosso trabalho.


IPÊ – Como surgiu a parceria com o Jota Quest? Além da música Tele-fome, há outra parceria em vista com a banda?
PAULINHO – Minha parceria com Rogério Flausino foi acidental. Ele esteve na minha casa, dei um livro meu de poesias pra ele e um tempo depois ele me ligou, dizendo que tinha colocado música em uma das poesias e o Jota Quest gravou-a no disco Oxigênio, que vendeu mais de 1 milhão de cópias. Mandei mais 5 letras pra Rogerio e estou aguardando com paciência.


IPÊ – Quais são as influências musicais do passado e do presente?
PAULINHO – Fui influenciado musicalmente por Dilermando Reis, Altemar Dutra, Nelson Gonçalves, Jovem Guarda (principalmente Tim Maia e Roberto Carlos), Beatles, Fagner, Gonzagão, Milton Nascimento…


IPÊ – É sabido que você se apresenta, com relativa frequência, em nossa região na Casa do Bosque Pub (Perdões). A existência de espaços como esse é importante para a difusão de músicas culturais (sem apelo comercial)?
PAULINHO – Emílio Victtor é um anjo musical. Nossa esperança em produzir qualidade e valorizar o artista. A casa do Bosque é uma referência para o mundo e Perdões tem que dar conta disso, se sentindo orgulhosa da pérola que tem! Cantei lá 4 vezes e cantarei quantas vezes me chamarem. A gastronomia de lá é impecável e o atendimento é ótimo; sem contar com o visual da casa de mais de 100 anos, a natureza e o guarda da casa que se chama Bóris (um cachorro enorme e elegante! rsss…). Vale à pena visitá-los e copiar esse exemplo para todo o Brasil.


IPÊ – Quais as alternativas a música cultural possui para sua preservação e divulgação hoje?
PAULINHO – Para preservar a boa música é só continuar produzindo coisas boas e incentivando os mais novos a cuidar da criação; divulgando em shows, rádios, TVs, jornais e pela internet, que é atualmente, o melhor meio de comunicação, divulgação e preservação dos nossos valores.


IPÊ – Como seus livros e CD’s são disponibilizados para o público?
PAULINHO – Meus CDs e livros são encontrados em sebos, lojas especializadas e pela internet.


IPÊ – Qual o seu próximo trabalho?
PAULINHO – Meu próximo trabalho é terminar a produção do meu primeiro DVD, comemorando meus 30 anos de carreira, lançar mais um CD, com canções inéditas, mais um livro, escrito entre Berna e Milão e viajar pelo mundo pedindo a Deus muita saúde e alegria, para poder continuar com essa arte maravilhosa que é levar para as pessoas, momentos de descontração, paz, reflexão e fraternidade.

Revista Ipê