Vanda Amâncio Bezerra: uma vida dedicada à educação

Assim que chegamos ao Pró-Memória do Instituto Presbiteriano Gammon, Vanda Amâncio Bezerra, carinhosamente conhecida por Dona Vandinha, veio toda animada nos contando que havia encontrado novas cartas de Samuel Gammon. A emoção pela descoberta transbordava no seu olhar. “Fiquei a manhã toda fazendo uma pesquisa sobre os primórdios da Escola Agrícola de Lavras. E cada vez que leio encontro uma novidade”.

Ficamos acomodados em cadeiras de balanço, escutando com toda atenção as suas palavras de sabedoria. No início da nossa conversa Dona Vandinha disse: “Vou precisar de uma assistente aqui, pois tenho muitos projetos futuros e ações a realizar”. Logo, perguntei o segredo de tanta energia. Com poucas palavras ela descreveu: “Basta fazer o que se ama, além da vocação, é preciso ter o gosto de se viver”.

É impossível não se encantar com a sua disposição e jovialidade. A idade, ela prefere não revelar: “Não conta isso não, menina. Minha cabeça é de 15 anos, então não há razões para ficar falando da minha idade”, disse em risos. Uma mulher de garra, que fez história por todos esses anos. “Já trabalhei muito, quando leio meu currículo me dá uma canseira”, comentou contente.

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Além de todos os projetos que até hoje realiza no Gammon, Dona Vandinha ainda consegue um tempinho para se dedicar aos afazeres de casa: “Não tenho empregada, e assim vou vivendo feliz. Tem que ter pique, alegria e fazer acontecer”. Além de tudo, ela gosta de desenhar e fazer artesanato. Possui um projeto social em que produz cartões, com mensagens de apoio para pessoas que passam por momentos difíceis. Hoje, cerca de 100 pessoas recebem semanalmente as cartinhas da Dona Vandinha. “Vivo alegre, tentando distribuir otimismo”.

Já no final da nossa prosa, ela sentou ao meu lado para mostrar o Cordel que escreveu recentemente sobre a história do Gammon. Ao se acomodar, não encontrou os seus óculos. Mas, isso não foi empecilho, leu página por página sem nenhuma dificuldade. Toda orgulhosa, por mais um projeto realizado. Mesmo com toda experiência de educadora, a modéstia lhe faz parte, antes de mostrar o seu trabalho, ela disse: “Você pode verificar se está tudo fazendo sentido?” E não havia uma só palavra a ser mudada, mais uma obra impecável, produzida pela nobre Vanda Amâncio Bezerra.

Dona Vandinha lembra até mesmo o dia que iniciou a sua história na educação, 3 de março de 1954. Neste ano, completa 64 anos de magistério. Ela é formada em Pedagogia, especializada em orientação e Administração escolar e em Psicologia da criança e do adolescente, além de ser pós-graduada em filosofia da educação. Também realizou um curso de Jornalismo e Literatura Infantil. Dona Vandinha casou-se em 1958 com Ruy Mendes dos Santos e teve três filhos: Ludmila, Iracema e Alessandro. Ruy faleceu em 2014, com 99 anos.

UMA HISTÓRIA DE AMOR PELO GAMMON

Sua história com o Gammon se deve ao sonho do seu pai, José Amâncio de Souza, cearense, que tinha paixão pela instituição. “Como somos de família presbiteriana, lá no nordeste ele já tinha conhecimento do Colégio, moderno e com um currículo maravilhoso. Seu sonho era estudar aqui, então, com 12 anos, ele escreveu uma carta para o Dr. Gammon, que abriu a ele a oportunidade de vir com uma bolsa de estudos. Mas, na época houve uma seca muito intensa na nossa região, com uma enorme dificuldade financeira ele perdeu essa chance. Então, jurou que todos os seus filhos estudariam aqui. O sonho dele nunca morreu”.

Dona Vandinha conta que a sua dedicação aos estudos começou ainda criança. “Fomos morar num garimpo, lá eu adoeci, e fiquei sem caminhar, dos 4 aos 6 anos”. Foi nessa época que surgiu a paixão pelos livros. Ela conta que como não conseguia brincar muito, dedicava tempo à leitura, e com 4 anos já era alfabetizada. “Assim que eu me recuperei, meu pai disse que eu precisava de um clima bom para viver, decidiu me trazer para Lavras. Vim para o internato com 8 anos, era para eu entrar no 2º ano primário, mas, fiz um teste e comecei logo no 3º”.

Ela recebeu 80% de bolsa, e para manter os estudos era preciso trabalhar. “Minha tarefa era retirar as migalhas de pão das mesas, era o que eu conseguia fazer com 8 anos. Depois as tarefas foram aumentando. Até hoje eu guardo a pazinha de metal que eu usava”.

Com o passar do tempo, toda a família foi se mudando para Lavras. Seu pai conseguiu realizar o seu sonho, ver os filhos estudando no Gammon e ainda teve a oportunidade de trabalhar na instituição, passando por diversos cargos: diretor de internato, tesoureiro, também chegou a ser diretor do Departamento de Pessoal na UFLA. “Ele viveu o Gammon intensamente, mais que imaginou”.

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FAMÍLIA

A história de toda a família de Dona Vandinha é de muita luta. Seus pais,  José Amâncio e Vicência Bezerra, chegaram primeiramente a Campo Grande. Com as mãos finas, de escritor e farmacêutico, José Amâncio foi ser carroceiro, carregando areia para as construções.

“Tem um caso sui generis, que eu devo contar. Todas as tardes, após receber a diária como carroceiro, papai passava na padaria para comprar pão e leite. Um dia, seu patrão não levou o pagamento. Sem o dinheiro, ele passou na padaria e perguntou se poderia pagar no dia seguinte. O dono não aceitou. Após muitos anos, papai veio trabalhar na tesouraria do Gammon. Certo dia entrou um senhor em sua sala, e na mesma hora ele o reconheceu, era o dono da padaria: ‘Vim trazer meu filho para estudar aqui, mas, moro muito longe, às vezes o dinheiro vai atrasar e ele terá problemas, você pode cuidar dele para mim?’ Papai respondeu: ‘Com o maior prazer’. Cuidou do menino o tempo todo, sem nunca dizer o que havia ocorrido no passado. Olha a grandeza dele”.

Depois de Campo Grande, José Amâncio e Vicência foram para Rochedo, uma terra árida, mas rica em diamante. Formaram família e tiveram seis filhos. Ambos exerceram diferentes funções. O pai foi enfermeiro, delegado, juiz de paz, escrivão, professor e farmacêutico. A mãe, além de parteira, escrevia cartas para pessoas analfabetas na cidade e realizava autos de natal. “Ontem mesmo eu estava lembrando do papai fazendo cesariana no mato. Ele e mamãe fizeram muitas coisas”.

Vicência chegou a vender suas joias para ajudar no desenvolvimento de Rochedo. “O que sustentou nossa família foi a nossa fé. Eles construíram muitas coisas em Rochedo, como escola, delegacia e igreja”.

SUPERAÇÃO

Numa época de poucos recursos, Dona Vandinha conseguiu sobreviver ao câncer, com muita determinação. “Os médicos disseram que eu viveria 60 dias apenas. Naquela ocasião, eu não tinha dinheiro para o tratamento. Cheguei a vender vários pertences para sobreviver”.

Logo após o diagnóstico, ela recebeu um convite: ir à Brasília encerrar as atividades de uma escola presbiteriana. E, foi nesse momento de garra que ela conseguiu realizar o tratamento à doença. “Meu marido ficou em Lavras e eu fui com as crianças. Cheguei lá doente e sem dinheiro. Mas, por sorte, o melhor oncologista de Brasília foi meu colega no Gammon. Fiz o tratamento no melhor hospital da capital sem custos. Realizava a quimioterapia sexta e trabalhava segunda. Nunca parei”.

Após 19 anos em Brasília, participando ativamente do progresso de importantes instituições, Dona Vandinha retornou às suas raízes, ao Instituo Gammon.


Por Camila Caetano
Foto: Daniel Rocha

Revista Ipê